Tomorrow Never Knows

Tomorrow Never Knows

Em 1966 , os Beatles lançavam um dos álbuns mais importantes na história do  Rock and  Roll: “Revolver”. Alguns chegam a creditar a esse disco ser ele o mais importante de todos os tempos em todos os estilos musicais, excetuando-se a música erudita!

O álbum icônico traz na segunda faixa a canção Eleanore Rigby, um marco para a época, pois foi a primeira vez que uma canção de banda de  rock  lançava uma música inteira apenas com cordas ( violinos, violoncelos) tocados por músicos de orquestra. Aliás, é a única música dos Beatles na qual nenhum deles toca nenhum instrumento. O clássico “Dust in the wind” da banda norte americana Kansas ( um tremendo clássico do rock) só seria lançado em 1977, onze anos após o pioneirismo dos  Beatles.

Na quarta faixa , George Harrison aparece com uma  canção também totalmente revolucionária: “Love you to”. Em 1966, os Beatles iniciam uma viagem lisérgica e espiritual pelas filosofias e religiosidade oriental, sobretudo indiana. Nessa canção George Harrison introduz  sitar, tabla e tambura, instrumentos indianos. George toca sitar como se fosse guitarra, causou estranheza aos ouvidos ocidentais, e  influenciou gerações de hippies décadas à frente.

Como se já não fossem suficientes essas duas incríveis revoluções que ditariam normas e tendências na música ocidental e no comportamento das pessoas, a última faixa do disco é a esquisitíssima e emblemática “Tomorrow Never Knows” de John Lennon.

A história é interessante: Lennon havia rebobinado uma fita, e esse som fora gravado como fundo, posteriormente sobre ele vem as guitarras, baixo , bateria e voz cantando letra surrealista, pronto! Estava nascendo a psicodelia  e o rock progressivo!

Acredito que nenhum deles tinha ideia exata do alcance, da influência e da revolução cultural que estavam dando origem.  “A busca transcende ao que se destina”, diria  Guimarães Rosa. Mas John, Paul, George e Ringo estavam apenas sendo eles mesmos e seguindo seu papel no mundo.

Estou falando sobre perseguir o seu propósito. Não sabemos exatamente aonde nos levará o resultado de nossas ações e escolhas. Miramos uma coisa e podemos acertar outra. Isso não é desculpa para seguir a vida como se fosse letra de um  pagode: “vida leva eu, deixa a vida me levar”. Segundo Sêneca , poeta latino nascido no  ano 4 a.C. , “Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe aonde vai.”

Voltando a  Guimarães Rosa, “A busca transcende ao que se destina”, estamos sendo vividos por forças que desconhecemos e se revelam em nós.Podemos ouvir o chamado e seguir nossa missão pessoal, ou podemos recusar essa voz da consciência e seguir os ruídos do mundo. Quando isso acontece, estamos existencialmente perdidos. E a vida torna-se arbitrária, sem sentido. Levanta-se de manhã, toma o café e segue para o trabalho. Há serviço a fazer e contas a pagar. Fim de semana é para extravasar.

Mas qual o propósito de tudo o que fazemos? Certamente há uma razão para tudo o que acontece. E nossas escolhas determinam para onde irá a vida. A sua vida , seu estado emocional, as pessoas importantes que  estão ao seu lado, ou não estão, conta bancária, saúde física, tudo isso é fruto de suas escolhas e suas decisões passadas!  Ok, nem tudo. Há coisas das quais não temos controle. A vida é assim, uma parte é fruto de nosso esforço e decisão, mas não sabemos aonde vai dar isso. Certamente os quatro rapazes de Liverpool sabiam que eram ótimos no que faziam , e faziam com amor e prazer. Parece que aí está a chave.

 “Não tente entender a vida, viver é maior que qualquer entendimento” (Clarice Lispector). Sim não entendemos!

Mas o propósito  é aquilo que te move! Se os Beatles fossem apenas uma bandinha querendo agradar a crítica e os fãs teriam repetido "Love me do", "A Hard Day's Night", "Help", etc....não seria mais que uma banda pop vivendo de hits , e quando não conseguissem mais imitar a si mesmos, por falta de criatividade repetitiva, regravariam com arranjos novos sucessos antigos, como tanta gente faz....

 Assim que Campbell em O Poder do Mito ensina:  "O herói é alguém que deu a vida  por algo maior que ele mesmo.” Assim que em meio a tantas demandas, e ainda que não saibamos aonde nos levará exatamente o resultado de nossas escolhas, devemos seguir uma verdade interna, descobrir intuitivamente qual é a missão pessoal, e seguir no mundo a trajetória heroica que é sua própria vida: você é o centro da sua mandala!

                                                                                    

                                                                                      Denilson Sant'Ana

                                                                                      Psicoterapeuta



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