Ou isto ou aquilo

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol

ou se tem sol e não se tem chuva!

 

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

 

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

 

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

 

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e não guardo o dinheiro.

 

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...

e vivo escolhendo o dia inteiro!

 

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

 

Mas não consegui entender ainda

Qual é melhor: se é isto ou aquilo.

( Cecília Meireles)

 

 

 

 

 

O poema de Cecília, publicado em 1964, no livro que leva o mesmo nome, é uma obra de poesias para crianças, mas qualquer adulto pode enxergar a profundidade desse eterno dilema filosófico: ou se tem isto e abre-se mão daquilo, ou escolhe aquilo, e fica sem isto. Não podemos ter tudo! Nos cursos de economia e primeira regra de um investidor, é necessário aprender o “custo de oportunidade”. Basta ver os aplicadores em bolsa de valores: há o tempo certo para comprar e vender uma ação, o tempo exato da baixa e da alta pra se ganhar muito dinheiro....ou perder

quase tudo. Tudo é uma questão de observar o tempo das coisas e escolher na hora certa: o custo de oportunidade.

Renato Russo na canção “L’Aventura”, último trabalho da belíssima banda Legião Urbana lá nos idos de 1996:

 

“quem pensa por si mesmo é livre,

E ser livre é coisa muito séria

Não se pode fechar os olhos

Não se pode olhara pra trás

Sem se aprender alguma coisa pro futuro.”

 

E Jean Paul Sartre, filósofo francês existencialista, arremata enfaticamente: “o homem está condenado a ser livre.”

No fim da história, é isso aí, sabemos, na real, que entre o berço e o túmulo, estamos condenados a decidir o que fazer. Alguém pode dizer que somos obrigados a determinadas coisas que não queremos, e se somos obrigados, não temos escolha! Sim, é verdade. Mas ainda podemos escolher entre a obediência e a desobediência.

Ghandi escolheu a desobediência civil.

Podemos escolher ficar onde estamos e replicar o senso comum, podemos acreditar “no velho papo do tal psiquiatra/ que te ensina como é que você vive alegremente,/acomodado e conformado de pagar tudo calado,/ser bancário ou empregado sem jamais se aborrecer...”

Via de regra repetimos o mesmo padrão comportamental. A liberdade é um campo aberto, mas repetimos as experiências registradas no nosso hipocampo; repetimos o que está armazenado na amígdala cerebral.

O nome desse comportamento é compulsão à repetição. A psicanálise de Freud identificou que as pessoas têm uma tendência à repetição, inclusive das situações aflitivas. Isso quer dizer que inconscientemente escolhemos aquilo que nos fere, nos angustia. Depois dizemos para nós mesmos que foi um engano. Sim , Freud também explica isso: conscientemente estamos querendo buscar o prazer, e a felicidade. Mas inconscientemente, repetimos alguns modelos psíquicos que farão certamente a massa do doce azedar ali na frente! Padrões comportamentais repetitivos. Vamos escolhendo mais ou menos as mesmas coisas, e geralmente aquilo que no longo prazo pode não ser bom para nós. Um padrão alimentar violento e de forte impacto ambiental. Uma decisão financeira que pode tirar noites de sono de preocupação, escolhas, escolhas....

Estamos condenados a ser livres, no fim de tudo a decisão será sempre nossa, mas é bom saber que nem sempre estamos usando de todo livre arbítrio que está no espaço do nosso HD interno. Repetimos dentro de um pequeno núcleo do disco rígido cerebral....E perdemos o risco da oportunidade quando a vida acena com algo realmente novo! O medo pode paralisar! E já que estamos musical hoje ( você reparou a citação do Raul de Seixas?),

The Smiths, anos 80: “Shyness is nice and shyness can stop you from doing all the things in life you’d like you.”

 

O Yoga tem um sistema basilar de Yama e Nyama. Palavras sânscritas de difícil tradução, mas diria que são um conjunto de disciplinas que fundamentam uma atitude ética perante a vida. Uma atitude ética e comportamental que vai abrindo as portas da Matrix do sistema neuro-cerebral repetitivo, isto é, vai nos revelando, por camadas, aquele processo cerebral que repete sempre os mesmos circuitos de sinapses indo e vindo.

O livro mais clássico de Yoga , é o Yoga-Sutra de Patanjali, apesar de discordâncias parece que a obra é mesmo de 200 a.C.

E Patanjali, divide o Yoga em oito partes (ashtanga yoga), assim que , os ásanas são apenas uma oitava parte de um sistema de vida que visa quebrar os muros da prisão. Que prisão? Do sistema capitalista selvagem? Dos comunistas, da esquerda, da direita, dos panteras negras...?! Nâo. O yoga, ao longo do tempo de prática de uma pessoas , bem vivido e bem praticado – e isso é uma escolha – oferece os instrumentos e apresenta um caminho para quebrar essa reação em cadeia de emoções e decisões que o seu cérebro (e o meu) está viciado! O yoga apresenta essa instrumentalidade para quebrar o blockchain duramente construído ao longo de toda uma vida. “quem pensa por si mesmo é livre/ e ser livre é coisa muita séria!”

Rever o passado, analisar, seguir em frente no que está dando certo, e desativar o sistema neural de sinapses repetitivas que inconscientemente faz uma pessoa escolher o que no fundo não é bom para ela! Tudo isso é o assunto desse livro fantástico de Patanjali. A leitura não é fácil, mas a prática do Yoga, é certamente uma decisão. Você também pode escolher não fazer nada. Já é uma escolha. Seguir o senso comum (mainstream) ou decidir ser alternativo? (undergroun?), repetir o sistema normopata, para se adaptar e reproduzir os valores que vemos na TV, ou....decidir sair da Matrix, meia volta volver, rever todo um padrão de comportamento e atitude ética perante a existência, desde o que se alimenta, o que veste, o

que consome, como descarta(recicla), como usa a água, como respira, os exercícios físicos, até chegar à meditação....enfim escolhas.

Denilson Sant’Ana

Professor de Yoga e Meditação.

Psicoterapeuta.



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