A meditação e o livre-arbítrio

A meditação e o livre-arbítrio
 "No Caso da maioria das pessoas , quase todos os pensamentos costumam ser involuntários, automáticos e repetitivos.(...)Num sentido estrito, não pensamos - o pensamento acontece em nós. A afirmação "Eu penso" implica volição."
Assim escreveu Eckhart Tolle em seu livro  "A New Earth" de 2005 , publicado no  Brasil em 2007 sob o título "Um  Novo Mundo -     O Despertar de Uma Nova  Era".
     Eckhart explica que a afirmação "eu penso" , faz tanto sentido como : eu faço meu sangue fluir pelas minhas veias, ou eu faço meu coração bater, meu fígado e rins funcionarem.
    O seu corpo nesse momento está funcionando perfeitamente sem sua supervisão. E você  se lembra da barriga,  do joelho , da garganta ou da cabeça apenas quando estão incomodando...
    Assim que, o pensamento também acontece em nós.  "A digestão acontece, a circulação acontece, o pensamento acontece."
    "A voz na nossa cabeça tem vida própria. A maioria de nós está à mercê dela; as pessoas vivem possuídas pelo pensamento, pela mente."
    
    Em última instância, a meditação é o grande antídoto para frear o pensamento que acontece ininterruptamente na mente, o monólogo interno que nunca pára. 
    No Yoga Sutra de Patanjali, o primeiro e o segundo versos , respectivamente são:
                Atha Yoganunshasanam.
                Yogash Chitta Vritti Nirodhah.
        "Agora o ensino do yoga.
          Yoga é a supressão das modificações da mente."
    Logo no início da obra,   Patanjali já define de forma  absolutamente clara, qual é o objetivo e o fundamento do yoga: atenuar e eliminar esse pensamento que acontece na mente de forma involuntária. Parar o pensamento e ver sem sua interferência.
    Segundo o poeta Winston  Auden, somos vividos por foças que fingimos entender. Há uma reação cerebral, bioquímica, neuronal, que nos faz reagir como reagimos, e escolher o que escolhemos. Freud explica, é a força dos movimentos nas profundezas da psique humana - é o inconsciente que determina o que acontece na superfície da mente ou consciência.
Então não somos tão livres assim. O nosso livre arbítrio está restrito às forças que vem das profundezas do subconsciente.
E mais, as nossas escolhas atuais são determinadas por vivências passadas! Isso quer dizer que, embora , teoricamente tenhamos possibilidades infinitas à frente,  continuamos cometendo as mesmas decisões pertencentes a um leque de escolhas  determinadas em grande parte por experiências vividas anteriormente: continuamos repetindo a história , enfim. Nossa vida é um "museu de grandes novidades"; sim a história se repete. 
    Só escolheremos algo realmente novo, e fora do radar, quando pudermos pensar por vontade própria uma pensamento totalmente novo! E como ter uma ideia que nunca se teve, pensar o que nunca  pensou, se continuamos sendo os mesmos?
    O pensamento que acontece em nós é determinado pelo passado, pelas experiências passadas. Se conseguirmos parar as rodas dessa engrenagem e só observar, só perceber, poderemos reinterpretar a direção de nossas escolhas.
    Os antigos rishis da ìndia, iam para a floresta meditar. De olhos fechados, envoltos pela Mãe Natureza dedicaram suas vidas em muitas encarnações a decifrar os segredos do universo. Encontraram a paz profunda, a Paz que não é desse mundo, como anunciara o próprio Jesus milênios depois: "Meu  Reino não é desse mundo." ou "a Paz vos dou, não a paz do mundo, mas a Minha Paz vos dou." ( JO 14:27)   
     Se  percebermos que  vivemos dentro da matrix de nossas mentes, determinada por escolhas passadas  e um bojo  de sentimentos que seguem se repetindo em nossas decisões, então,   teremos alguma chance de libertação. Quando começamos a pelo menos desconfiar que talvez o que escolhemos pode não ser o melhor para nós mesmos, ainda quando buscamos , sem dúvida , a felicidade, então podemos libertar a nossa mente do atavismo multissecular.
    Precisamos, não há dúvida, continuar fazendo escolhas, mas podemos ao invés de ir reagindo aos ditames do subconsciente, aprender a  "fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu". Até Paulo de Tarso escreveu:
"porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço"(Romanos 7:19)
    Se alguém da estatura moral e espiritual de Paulo de Tarso conhece esse impasse, e o viveu, quanto mais nós também!
    Hoje, porém, ao contrário dos antigos rishis não podemos abandonar tudo e embrenhar  nas montanhas do Himalaia para meditar! ( ou alguns até podem: há mesmo o livre-arbítrio?) Lembro-me mais de Raul Seixas: " dois problemas se misturam/a verdade do universo e a prestação que vai vencer."
    De qualquer forma, meditar, observar os pensamentos, contemplar a Natureza, entregar-se inteiramente ao momento presente, aprender a se abrir para o amor e desfrutar das alegrias quando elas surgem, reconhecendo esse instante - pois tantas vezes nos sabotamos em nome de qualquer bobagem menor e perdemos a beleza do agora - tudo isso é um caminho do yogue. A meditação nos auxilia a viver melhor. E viver melhor, mais equilibradamente, vai também fazer da meditação uma prática cada vez mais agradável e libertadora.
                                                                                                                        Denílson Sant'Ana
                                                                                                                              Psicoterapeuta 


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