A Descoberta Daquilo a que pertencemos

A  Descoberta Daquilo a que pertencemos
No Livro Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés faz uma análise  da fábula O Patinho Feio. Este conto infantil ficou mundialmente conhecido a partir do autor dinamarquês Hans Christian Andersen. 
No Livro O Amor nos Tempos do Cólera, o Nobel em literatura Gabriel Garcia Márquez relata que as histórias de Andersen são contadas como se fossem histórias infantis, mas que na verdade são as histórias mais tristes que qualquer pessoa poderia ouvir em qualquer idade.
Clarissa analisa de forma vigorosa o conto “infantil”, pela perspectiva de arquétipos junguianos a respeito de nosso lugar no mundo: o sentimento de integração e pertencimento.
A nossa evolução espiritual, que é uma jornada individual , de forma contraditória, também é uma evolução da relação com o outro, a partir daquilo que somos, daquilo a que pertencemos. Equivale a dizer: qual é seu lugar no mundo? Para que você vive? Servindo a qual propósito? E com quem? Para quem?
Enquanto o lindo cisne pensava ser um pato, nada deu certo: ela era desastrado, desajeitado e feio, não era amado, não se sentia pertencido a ninguém, nem a lugar nenhum. Então ele foge, mas sua fuga também é desastrada. Enquanto não se olha na imagem refletida no lago não percebe quem é. E não sabendo quem é, a que veio e ao que pertence, tudo dá errado, ou quase tudo.
E esse é ponto fundamental de qualquer ser humano neste planeta com um pouco mais de 7 bilhões de habitantes: Quem você realmente é? Sob qual missão? Servindo a qual propósito? Receio ser repetitivo, mas quando não estamos no lugar ao qual pertencemos vamos vivendo uma vida que não é a nossa, e nesse caso não alcançamos prosperidade material , nem (sobretudo) a prosperidade espiritual.
Encontrar uma profissão que possa prover adequadamente a existência, e buscar exercê-la com excelência e alegria é ideal nobre. Segundo Freud , a felicidade só é possível com amor e trabalho.
Fazer aquilo que é a sua atividade diária com desprazer é condenar-se a uma vida de suplício. É desconhecer seu lugar no mundo, é uma desnatureza.
Amar e ser amado, sentir-se pertencido, ser acolhido e saber acolher, é da essência do ser humano. Alguns estão trabalhando espiritualmente a transcendência da relação amorosa e do sexo, mas ninguém prescinde de amizades verdadeiras. Todos queremos e precisamos amar e sermos amados. Não reconhecer isso é negar a sua própria condição de humanidade.
No livro Cem Anos de Solidão, escreve Gabriel Garcia Márquez: “Tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte.”
É o retrato de um casal que encontrou seu lugar. Não a paixão “eros” mas o amor, e a paz que advém do amor; “filia” primeiro, depois “ágape”. Este é o amor transcendência, comunhão.
Todos pertencemos e somos pertecidos, a um lugar, a um propósito, (a alguém?) E apesar disso , seguimos livres.
Livre mas não sozinho. Ou sozinho e preso à sua condição de carência?
E apesar disso tudo o caminho também é solitário. Lá no fundo é só você.
Ficou contraditório? Mais que isso, é mais que oposto, antítese ou contraste, em filosofia se diz que é um oxímoro.
Transcrevo abaixo um trecho de um texto de Clarice Lispector para ilustrar maravilhosamente um oxímoro e a inutilidade de tentar explicar a vida:
“Olha, tenho a alma prolixa e uso poucas palavras.
Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calmo e perdôo logo.
Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de eu que me lembre.”
(...)
“Tenho duas caras. Uma quase feia. Uma quase bonita. O que sou? Um quase tudo.”

E assim, desesperadamente calmo, sigo tentando encontrar meu lugar no mundo. A lei de pertencimento de que nos fala Hellinger, é a essência da história do patinho feio. A integração com o outro, com a Natureza, com Deus, com o Universo. “Fundamental é mesmo o Amor, é impossível ser feliz sozinho”.
Assim que nessa busca do Propósito, do Amor, e da Verdade, que no fundo é a mesma coisa, lembro-me do grandioso Drumond:
“Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
 
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

Sobre essa jornada transcendental da existência que nos transcende, recorro outra vez à extraordianária Clarice Lispector:
“Com certas coisas não me preocupo em entender, pois sei que viver ultrapassa qualquer entendimento, então eu me rendo e mergulho de cabeça naquilo que não conheço, pois isso é vivenciar; isso é viver. E durante as minhas jornadas ao encontro do meu caminho, irei colhendo frutos e semeando outros, pois a essência da vida está em saber selecionar aquilo que tem utilidade e semeá-las mundo a fora. Dentre tudo aquilo que posso ser , sou exatamente como você me vê, posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar, mas tenha a certeza de que sou toda feita pro amor e não faço outra coisa do que me doar.”

E como não sei de quase nada, mas desconfio de muita coisa, penso que no fim , descobrir a missão pessoal e o Propósito tem a ver com sentir-se integrado. E sentir-se integrado é ser íntegro , é estar inteiro, é estado de samadhi, e todas as tradições parecem chamar a isso de Amor. Assim com letra maiúscula, porque não é do amor humano dúbio que se fala aqui, o que se busca acima de tudo, é a integração e expressão do Amor Cósmico.

“A idade não tem realidade exceto no mundo físico. A essência de um ser humano é resistente à passagem do tempo. Nossas vidas interiores são eternas, o que significa dizer que nossos espíritos permanecem tão jovens e vigorosos como quando estávamos em plena floração. Pense no amor como um estado de graça, não o meio para qualquer coisa, mas o alfa e o ômega. Um fim em si mesmo.” Gabriel Garcia Márquez



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